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Saúde Intestinal e Autismo

Saúde Intestinal no Transtorno do Espectro Autista

Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam, em média, maior frequência de sintomas gastrointestinais do que a população não autista. Entre os sintomas mais relatados estão constipação, diarreia, dor abdominal, distensão abdominal, alterações do hábito intestinal e alterações da motilidade gastrointestinal.

Pesquisas científicas também investigam possíveis diferenças na microbiota intestinal, no metabolismo produzido pelas bactérias intestinais, na barreira intestinal e na resposta imunológica da mucosa. Entretanto, essas alterações não estão presentes em todas as pessoas autistas e não constituem, atualmente, um marcador diagnóstico do autismo.

A relação entre autismo e saúde intestinal é complexa e provavelmente envolve fatores neurológicos, genéticos, ambientais, alimentares, imunológicos e relacionados ao funcionamento do sistema nervoso entérico.

Uma revisão publicada na Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology destaca a elevada ocorrência de constipação, diarreia e dor abdominal em pessoas com TEA e discute a participação do sistema nervoso entérico, microbiota e metabólitos intestinais no chamado eixo intestino-cérebro.

1. Principais Alterações Gastrointestinais Associadas ao TEA

1.1 Constipação

A constipação é uma das alterações gastrointestinais mais frequentemente relatadas em pessoas autistas.

Fatores comportamentais, sensoriais, alimentares e alterações da motilidade intestinal podem contribuir para a constipação.

1.2 Diarreia

Episódios de diarreia também podem ocorrer com maior frequência em determinados grupos de pessoas autistas.

A presença de diarreia não significa necessariamente que exista inflamação intestinal. Infecções, intolerâncias alimentares, alterações funcionais, medicamentos e outras doenças gastrointestinais também podem causar esse sintoma.

1.3 Dor e Distensão Abdominal

Dor abdominal e distensão são frequentemente relatadas em pessoas com TEA e podem ser particularmente difíceis de identificar quando a pessoa apresenta dificuldades de comunicação ou de percepção e expressão da dor.

2. Por Que o Intestino Pode Apresentar Alterações?

Ainda não existe uma única explicação para a maior frequência de sintomas gastrointestinais no TEA. Os estudos indicam que diferentes mecanismos podem participar simultaneamente.

2.1 Sistema Nervoso Entérico

O intestino possui uma extensa rede de neurônios conhecida como sistema nervoso entérico. Essa rede participa do controle da motilidade, secreções, sensibilidade e funcionamento do trato gastrointestinal.

Como o TEA envolve alterações do desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso, pesquisadores investigam se mecanismos relacionados ao sistema nervoso entérico também podem contribuir para alterações gastrointestinais.

2.2 Motilidade Intestinal

Alterações na velocidade com que o conteúdo intestinal se movimenta podem contribuir para sintomas como constipação, diarreia, distensão e dor abdominal.

2.3 Alimentação Seletiva

A seletividade alimentar é relativamente frequente no TEA e pode modificar significativamente a composição da dieta.

Uma alimentação com pouca variedade pode alterar a quantidade de fibras, frutas, vegetais e diferentes fontes de carboidratos disponíveis para a microbiota intestinal.

Dessa maneira, parte das diferenças observadas na microbiota de pessoas autistas pode estar relacionada à alimentação e ao funcionamento intestinal, e não necessariamente ao TEA isoladamente.

3. Microbiota Intestinal

A microbiota intestinal é formada por trilhões de microrganismos que vivem no trato gastrointestinal, incluindo bactérias, arqueias, fungos e vírus.

Esses microrganismos participam da digestão, produção de metabólitos, metabolismo de nutrientes e interação com o sistema imunológico.

3.1 Diferenças Encontradas em Estudos

Estudos de microbioma identificaram diferenças na composição e nas funções metabólicas da microbiota intestinal de alguns grupos de pessoas com TEA.

Um estudo publicado em 2024 na Nature Microbiology utilizou sequenciamento metagenômico de amostras fecais de 1.627 crianças, identificando diferenças envolvendo arqueias, bactérias, fungos, vírus, genes microbianos e vias metabólicas entre crianças autistas e neurotípicas.

O estudo identificou 14 arqueias, 51 bactérias, 7 fungos, 18 vírus, 27 genes microbianos e 12 vias metabólicas diferencialmente representados entre os grupos estudados.

Apesar dos resultados promissores, esses achados ainda não transformam a análise do microbioma em um exame clínico estabelecido para diagnóstico de autismo.

3.2 Fatores que Influenciam a Microbiota

Por isso, encontrar uma diferença na microbiota entre grupos não significa necessariamente que essa diferença seja causada exclusivamente pelo autismo.

4. Barreira Intestinal e Permeabilidade

A parede intestinal funciona como uma barreira seletiva. Ela permite a absorção de nutrientes e, ao mesmo tempo, ajuda a impedir a passagem inadequada de substâncias e microrganismos.

As células do intestino são conectadas por estruturas chamadas junções estreitas (tight junctions), que participam do controle da passagem de substâncias entre as células.

4.1 Permeabilidade Intestinal

Alguns estudos investigaram se determinados grupos de pessoas autistas poderiam apresentar alterações da permeabilidade intestinal, fenômeno popularmente chamado de "intestino permeável" ou "leaky gut".

Entretanto, os resultados são inconsistentes e não demonstram que todas as pessoas autistas apresentem aumento da permeabilidade intestinal.

Um estudo que avaliou crianças com autismo e sintomas gastrointestinais utilizou teste de permeabilidade intestinal, calprotectina fecal, lactoferrina fecal e avaliação histológica. Os pesquisadores não encontraram alterações de permeabilidade específicas do autismo e concluíram que os exames utilizados não identificaram uma patologia gastrointestinal específica do TEA.

5. Mucosa Intestinal e Inflamação

A mucosa intestinal é a camada que reveste internamente o trato gastrointestinal e possui células epiteliais, células imunológicas e estruturas especializadas envolvidas na absorção e defesa.

Alguns estudos encontraram alterações inflamatórias leves ou alterações de células imunológicas na mucosa intestinal de determinados indivíduos autistas, especialmente em estudos envolvendo pessoas com sintomas gastrointestinais.

Entretanto, essas alterações não são universais e também podem ocorrer em diversas outras condições gastrointestinais.

5.1 Possíveis Alterações Investigadas

5.2 Inflamação Não é Universal

É importante destacar que não existe evidência suficiente para afirmar que todas as pessoas autistas apresentam inflamação intestinal.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 avaliou estudos sobre marcadores fecais não invasivos de inflamação gastrointestinal em pessoas autistas e não autistas. Os resultados reforçam que a relação entre TEA e inflamação gastrointestinal ainda apresenta lacunas importantes de conhecimento.

6. Eixo Intestino-Cérebro

O eixo intestino-cérebro descreve a comunicação bidirecional entre o sistema nervoso central, o sistema nervoso entérico, o sistema imunológico, os hormônios e a microbiota intestinal.

A comunicação ocorre por diferentes mecanismos, incluindo:

A existência do eixo intestino-cérebro é bem estabelecida. Entretanto, a extensão e a importância específica dessa comunicação na origem ou manutenção das características do autismo continuam sendo investigadas.

7. Exames que Podem Ser Utilizados na Investigação

Não existe atualmente um exame intestinal capaz de diagnosticar o autismo. Os exames gastrointestinais são utilizados principalmente para investigar sintomas, excluir doenças e identificar alterações que necessitem de tratamento.

7.1 Exames de Fezes

Calprotectina Fecal

A calprotectina fecal é um marcador utilizado para avaliar a presença de inflamação intestinal. Pode ser útil na investigação de doenças inflamatórias intestinais e outras condições.

Lactoferrina Fecal

A lactoferrina fecal também pode ser utilizada como marcador de atividade inflamatória intestinal.

Exame Parasitológico

Pode ser solicitado quando existe suspeita de parasitoses, dependendo dos sintomas e do contexto clínico.

Sangue Oculto nas Fezes

Pode ser utilizado em situações específicas para investigar sangramento gastrointestinal.

7.2 Exames Laboratoriais

7.3 Testes de Permeabilidade Intestinal

Alguns estudos científicos utilizam testes específicos de permeabilidade intestinal, como testes envolvendo lactulose e ramnose.

Esses testes são utilizados principalmente em pesquisa e não constituem um exame diagnóstico de autismo.

7.4 Análise da Microbiota

A microbiota pode ser estudada através de técnicas de sequenciamento, incluindo análise do gene 16S rRNA ou sequenciamento metagenômico.

A metagenômica permite estudar não apenas quais microrganismos estão presentes, mas também genes e possíveis funções metabólicas.

Apesar dos resultados científicos promissores, testes comerciais de microbioma não devem ser interpretados isoladamente como diagnóstico de TEA ou como prova de que uma determinada bactéria seja a causa do autismo.

7.5 Endoscopia Digestiva Alta

Pode ser indicada pelo médico quando existem sintomas ou sinais que justifiquem investigação do esôfago, estômago ou duodeno.

Durante o procedimento podem ser coletadas biópsias para avaliação microscópica.

7.6 Colonoscopia

Pode ser indicada para investigação de sintomas específicos, como sangramento, diarreia persistente, suspeita de doença inflamatória intestinal ou outras alterações que necessitem de avaliação do cólon.

7.7 Biópsia Intestinal

A análise histológica de uma biópsia pode avaliar:

8. Diferenças Identificadas em Pesquisas

Os estudos científicos apontam para possíveis diferenças em diferentes níveis, mas nenhuma delas é encontrada obrigatoriamente em todas as pessoas autistas.

9. O Que Ainda Não Está Comprovado

Apesar do crescimento das pesquisas sobre o assunto, várias afirmações populares ainda não possuem comprovação científica suficiente.

10. Relação Entre Autismo e Sintomas Gastrointestinais

A relação pode ser entendida como multifatorial.

O TEA pode estar associado a características que favorecem alterações gastrointestinais, como seletividade alimentar, diferenças sensoriais, alterações comportamentais, alterações da motilidade e diferenças no funcionamento do sistema nervoso entérico.

Por outro lado, sintomas gastrointestinais podem produzir dor, desconforto, alterações do sono, irritabilidade e mudanças comportamentais.

Dessa forma, existe interesse científico no chamado eixo intestino-cérebro, mas ainda não é possível estabelecer uma relação simples de causa e efeito.

11. Microbiota e Possíveis Biomarcadores

Um dos campos mais promissores de pesquisa é a procura por biomarcadores biológicos associados ao TEA.

O estudo publicado na Nature Microbiology em 2024 analisou 1.627 crianças e encontrou alterações em múltiplos grupos de microrganismos e vias metabólicas. Os pesquisadores também utilizaram modelos de aprendizado de máquina para investigar a capacidade desses marcadores de diferenciar grupos.

O modelo que combinou 31 marcadores microbianos e funcionais apresentou uma área sob a curva (AUC) de aproximadamente 0,91 no conjunto estudado. Esse resultado é cientificamente relevante, mas não significa que exista atualmente um teste clínico validado para diagnosticar autismo através das fezes.

12. Possíveis Linhas de Pesquisa

A investigação científica do eixo intestino-cérebro no TEA pode envolver diferentes áreas.

13. Cuidados na Interpretação dos Exames

Um resultado alterado em um exame gastrointestinal não significa automaticamente que a alteração seja causada pelo autismo.

Constipação, diarreia, inflamação, alterações da microbiota, alergias, intolerâncias, doença celíaca, infecções, síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias intestinais podem ocorrer independentemente do TEA.

Por isso, os resultados devem ser interpretados juntamente com os sintomas, histórico clínico, alimentação, medicamentos e avaliação médica.

14. Quando Procurar Avaliação Médica?

Sintomas gastrointestinais persistentes devem ser avaliados por um profissional de saúde, especialmente quando existem sinais de alerta.

15. Conclusão

As evidências científicas indicam que alterações gastrointestinais são mais frequentes em pessoas com Transtorno do Espectro Autista. Constipação, diarreia, dor abdominal e alterações da motilidade estão entre os problemas mais relatados.

Pesquisas também identificaram diferenças na microbiota intestinal e em suas funções metabólicas. Outros estudos investigam a barreira intestinal, a permeabilidade, a resposta imunológica e possíveis alterações da mucosa.

Entretanto, essas alterações não estão presentes em todas as pessoas autistas e não existe atualmente um padrão intestinal único que caracterize o TEA.

Portanto, a relação entre autismo e intestino deve ser compreendida como uma área de pesquisa envolvendo múltiplos mecanismos, e não como uma única doença intestinal causada pelo autismo.

16. Principais Referências Científicas

17. Observação Importante

As informações apresentadas nesta página têm finalidade educativa e informativa. Sintomas gastrointestinais devem ser avaliados individualmente por profissionais de saúde. A presença de constipação, diarreia, alteração da microbiota ou qualquer outro achado gastrointestinal não confirma diagnóstico de autismo.

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